Portabilidade numérica: o que ISPs e operadoras precisam saber

Número de telefone transferido como um feixe luminoso de dígitos entre duas torres de operadoras, ilustrando o processo de portabilidade numérica para ISPs e operadoras que trocam de provedor de serviços de voz

A portabilidade numérica é o mecanismo regulatório que permite ao assinante manter o número de telefone ao trocar de provedor, de tipo de transporte ou de categoria de serviço. Para provedores de serviços de internet (ISPs) e operadoras, é também um dos processos administrativos mais trabalhosos da operação de voz e um dos pontos em que mais se perde cliente quando algo dá errado. A maioria das operadoras só se dá conta disso na primeira portabilidade rejeitada.

Este artigo é a referência operacional para ISPs, ILECs, CLECs, provedores de serviços gerenciados (MSPs) e operadoras de atacado que lidam com port-in e port-out (a entrada e a saída de números) como parte permanente da rotina da operação de voz, e não só como um evento pontual de migração. Explicamos o que é, na prática, a portabilidade numérica local (Local Number Portability, LNP), como funcionam os principais regimes na América do Norte, no Reino Unido, na União Europeia e em vários mercados da APAC, o que o Controlador de Borda de Sessão (SBC) precisa fazer na camada de roteamento depois que um número é portado, como é o fluxo operacional de port-in e port-out e quais falhas estão por trás da maioria das disputas de portabilidade.

Se você está fazendo uma migração pontual da PSTN para uma plataforma VoIP, o ponto de partida certo é o guia de migração para ISPs que estão substituindo a PSTN. Este artigo é para a equipe que lida com portabilidades no dia a dia, depois que a migração já terminou. Para entender a arquitetura SIP em que tudo isso se encaixa, veja a página pilar de SIP trunking (troncos de voz sobre IP) e interoperabilidade.

Termos e conceitos-chave
Um glossário de referência rápida para os termos usados ao longo deste artigo.
LNP (Local Number Portability)Termo abrangente para o mecanismo regulatório que permite ao assinante manter o número de telefone ao trocar de provedor. No uso regulatório estrito, LNP se refere especificamente à portabilidade de linhas fixas; já o termo mais amplo, portabilidade numérica, cobre também a portabilidade móvel (MNP), a de VoIP e a de tipo de serviço.
Operadora doadora (losing carrier)O provedor que atende o número hoje e do qual o assinante está saindo. A operadora doadora tem a obrigação de validar, aprovar e executar a portabilidade dentro de um prazo regulamentado.
Operadora receptora (gaining carrier)O provedor que assume o número em nome do assinante. A operadora receptora inicia e coordena o pedido de portabilidade e passa a controlar o roteamento no momento da virada (cut-over).
LSR (Local Service Request)A solicitação administrativa padronizada que a operadora receptora envia à operadora doadora para iniciar a portabilidade. O LSR traz a identificação do assinante, os números envolvidos, a data de virada pretendida e os documentos de suporte.
LOA (Letter of Authorization)A autorização assinada pelo assinante, que a operadora receptora coleta antes de enviar o LSR. A LOA é a prova legal de que o assinante consentiu com a portabilidade e, mais adiante, serve de base para a atestação STIR/SHAKEN.
CSR (Customer Service Record)O registro da operadora doadora que mostra quem é o titular atual do número, com nome de faturamento, endereço e ID da conta. A operadora receptora confere o LSR com o CSR antes que a portabilidade possa seguir adiante.
FOC (Firm Order Commitment)A resposta da operadora doadora confirmando que a portabilidade será executada em um horário de virada específico. Com o FOC em mãos, a operadora receptora tem sinal verde para provisionar o roteamento e avisar o assinante.
NPAC (Number Portability Administration Center)A base de dados central do plano de numeração norte-americano (North American Numbering Plan, NANP) que associa cada número portado ao identificador de roteamento da central (switch) que o atende no momento. É operada pela iconectiv desde 2015.
LRN (Location Routing Number)Identificador de dez dígitos atribuído a cada central do NANP. Depois da portabilidade, as chamadas para o número portado seguem para o LRN da operadora receptora, e não para o centro de tarifação (rate center) original indicado pelo NPA-NXX. O NPAC publica o mapeamento LRN-to-TN, que liga cada número de telefone (TN) ao seu LRN.
NPDI (Number Portability Dip Indicator)Flag transportada na sinalização SIP que indica que um nó anterior no caminho da chamada já fez a consulta (dip) à base de LNP e resolveu o LRN. Quando o NPDI está presente, os roteadores seguintes (incluindo o SBC) devem respeitar esse resultado em vez de consultar a base de novo.
LERG (Local Exchange Routing Guide)Conjunto de dados de referência publicado pela iconectiv que lista cada bloco NPA-NXX do NANP, a central a que ele está atribuído e seus atributos de roteamento. O LERG é a contraparte estática da base dinâmica do NPAC.
SnapbackA reversão de uma portabilidade. Em algumas situações, a operadora doadora pode desfazer a portabilidade dentro de um prazo definido (geralmente 30 dias), devolvendo o número ao provedor original e deixando a operadora receptora com um registro órfão.
B2BUA (Back-to-Back User Agent)Arquitetura de SBC em que o equipamento termina por completo o diálogo SIP de entrada e origina um novo diálogo do outro lado. O B2BUA controla cada cabeçalho em cada perna da chamada, e é isso que permite tomar decisões de roteamento LNP chamada a chamada na borda da rede.
NAP (Network Access Point)Objeto lógico de configuração dentro do SBC que representa uma interconexão com operadora, um cliente ou um serviço específico. Alguns fabricantes chamam isso de grupo de troncos (trunk group) ou peer entry. O comportamento do dip de LNP é configurado por NAP.

O que é, de fato, a portabilidade numérica

A portabilidade numérica é uma promessa regulatória: quando o assinante troca de provedor de voz, o número vai junto. A regra nasceu para estimular a concorrência e hoje faz parte da política de telecomunicações de todos os mercados relevantes. Nos Estados Unidos, a exigência vem da Seção 251 do Telecommunications Act de 1996 (veja a visão geral da FCC sobre a Wireless Local Number Portability). No Reino Unido, a base são as General Conditions of Entitlement da Ofcom, e na União Europeia a regra está no artigo 106 do Código Europeu das Comunicações Eletrônicas (EECC). Austrália, Brasil, Índia e a maioria dos mercados da APAC têm regras equivalentes, administradas pelos respectivos reguladores.

Na prática, existem três tipos de portabilidade. A portabilidade de provedor é o caso mais comum: o número continua o mesmo e o provedor muda. A portabilidade geográfica permite que o número acompanhe o assinante para outro endereço físico, algo que o NANP só aceita dentro do mesmo centro de tarifação, mas que vários mercados da UE autorizam de forma mais ampla. A portabilidade de serviço leva o número de um tipo de serviço para outro, por exemplo de fixo para móvel, e continua rara fora de poucas jurisdições. Para ISPs e operadoras, é a portabilidade de provedor que consome tempo de operação.

A portabilidade vale para o número em si. O plano de serviço, a caixa postal, os recursos de chamada e as credenciais SIP ficam para trás. O assinante que porta um número da operadora doadora para a operadora receptora está contratando um serviço novo que, por acaso, usa o mesmo identificador do anterior. Essa distinção gera uma quantidade surpreendente de confusão entre os assinantes e de chamados de suporte depois da portabilidade, e é um dos motivos pelos quais a portabilidade numérica é tratada mais como disciplina operacional do que como tarefa técnica.

Como a LNP funciona no plano de numeração norte-americano (NANP)

O NANP abrange os Estados Unidos, o Canadá e a maior parte dos territórios do Caribe. A base de dados central que viabiliza a LNP em toda essa área é o NPAC, operado pela iconectiv sob um contrato plurianual concedido pelo NAPM (o comitê do NANC que seleciona o LNPA). Todo número elegível para portabilidade no NANP tem um registro no NPAC que associa o número de telefone a um LRN, e esse LRN identifica a central que atende o número naquele momento. É para o LRN que a rede encaminha as chamadas depois que a portabilidade é executada.

Quem participa

A operadora doadora atende o número hoje e é obrigada pelas regras da FCC e da CRTC a colaborar com a portabilidade. A operadora receptora assume o número e é responsável por iniciar o LSR, coletar a LOA, validar o CSR, coordenar a virada e avisar o assinante. O NPAC mantém o mapeamento oficial LRN-to-TN. A iconectiv administra o NPAC, o LERG, o registro de Service Provider Identifiers (SPID) e o programa de tokens Service Provider Code (SPC), que vincula os registros de autorização de números à atestação STIR/SHAKEN.

O passo a passo

Um port-in começa quando o assinante entrega a LOA assinada à operadora receptora. Ela confere o LSR com o CSR obtido da operadora doadora e envia o pedido por uma clearinghouse (NeuStar, iconectiv, TNS ou Bandwidth, conforme a configuração de cada operadora), a intermediária que encaminha as solicitações entre as partes. A operadora doadora analisa o LSR, confirma a titularidade da conta e devolve um FOC com o horário de virada acordado, normalmente expresso como uma data e uma janela de quatro horas. Na virada, o registro do número portado no NPAC é atualizado para apontar para o LRN da operadora receptora. A partir daí, toda operadora do NANP que faz a consulta de LNP (o chamado dip) para esse número encaminha a chamada para a operadora receptora.

Portabilidade de atacado e portabilidade de assinante

Para ISPs e operadoras, as duas modalidades importam. A portabilidade de assinante envolve um único cliente final que troca de provedor e segue o processo padrão de LSR. Já a portabilidade de atacado abrange um bloco de números que passa de uma operadora upstream para outra, muitas vezes por causa de uma aquisição ou da troca de fornecedor de atacado, e é administrada em lote pelos mesmos mecanismos do NPAC. Um ISP pequeno que entrega o serviço por meio de um parceiro de atacado pode enfrentar as duas ao mesmo tempo: a operadora upstream dele muda (uma portabilidade de atacado que o ISP não pediu) e, simultaneamente, um assinante decide sair (um port-out de assinante, este sim solicitado pelo ISP). Coordenar as duas situações é delicado na operação e é uma das falhas que abordamos mais adiante neste artigo.

Como a LNP funciona fora da América do Norte

Todo mercado de voz regulamentado tem alguma forma de portabilidade numérica, mas o modelo administrativo e o ritmo operacional variam. Três padrões predominam.

Reino Unido (Ofcom)

Historicamente, o Reino Unido adotava um modelo conduzido pela operadora doadora, em que ela controlava a portabilidade e as chamadas sempre passavam primeiro pela doadora antes de seguir para o destino. A Ofcom está implantando aos poucos um modelo conduzido pela operadora receptora, semelhante à arquitetura do NANP, com uma base de dados central de referência e roteamento direto para a receptora. Nesse modelo, a portabilidade leva um dia útil para assinantes residenciais, e clientes empresariais podem ter a execução no mesmo dia em alguns cenários. O Reino Unido usa mensagens de portabilidade baseadas em XML, trocadas pela Openreach e pelos sistemas das principais operadoras.

União Europeia (EECC)

Pelo artigo 106 do EECC, todos os Estados-membros devem implementar a portabilidade entre provedores em até um dia útil, sem custo para o assinante. Cada Estado-membro administra sua própria base central (a OPTA na Holanda, o registro do BIPT na Bélgica, o sistema da BNetzA na Alemanha, entre outros), mas os conceitos operacionais são os mesmos: a operadora receptora inicia, a doadora valida, um registro central guarda a alteração e o roteamento é atualizado. Muitos mercados da UE usam ENUM (mapeamento de E.164 para URI) como mecanismo de consulta de roteamento para números portados, o que torna o trabalho do SBC na camada de roteamento um pouco diferente de um dip de LRN no NANP.

Austrália, Brasil, Índia e outros mercados da APAC

Austrália (ACMA, modelo conduzido pela receptora, prazos curtos), Brasil (ANATEL, base central de portabilidade) e Índia (TRAI, com Mobile Number Portability Operators regionais) mantêm, cada um, seus próprios registros centrais e fluxos de portabilidade. O que todos têm em comum é uma base de dados central e uma troca definida entre a operadora doadora e a receptora. Em relação ao NANP, o comportamento do SBC muda no tipo de consulta: um dip de LRN no NPAC, no caso do NANP; uma consulta ENUM em boa parte da UE; uma consulta à base central de portabilidade no Brasil; e assim por diante. Tecnicamente, cada tipo de consulta é uma requisição de API diferente, feita a uma fonte de verdade diferente, mas a pergunta de roteamento por trás é sempre a mesma: quem atende este número agora?

Portabilidade entre países

A portabilidade numérica é nacional por definição. Um número dos EUA não pode ser portado para uma operadora do Reino Unido, nem o contrário. Operadoras presentes em vários países mantêm um fluxo de LNP separado para cada jurisdição. O tráfego internacional de voz que sai de um número portado segue pelos mesmos caminhos de saída de qualquer outra chamada; a mudança de portabilidade só tem efeito no mercado de origem.

A mecânica do roteamento: onde entra o SBC

Antes da portabilidade numérica, cada número de telefone tinha um endereço fixo: o NPA-NXX dos dígitos discados dizia à rede exatamente qual central o atendia. O roteamento era estático e ficava no LERG. A portabilidade derrubou essa premissa. Depois que o número é portado, o NPA-NXX ainda indica o centro de tarifação original, mas a central que de fato atende o número está em outro lugar. A rede precisa descobrir a nova localização a cada chamada, e é aí que entra o SBC.

O dip de LNP

O dip de LNP é uma consulta à base de portabilidade para obter o identificador de roteamento atual de um número. No NANP, o dip retorna o LRN. Nos mercados da UE que usam ENUM, ele retorna a URI para onde a chamada deve ser roteada. Em todos os casos, o SBC extrai o número chamado do INVITE de entrada, consulta a base apropriada (ou uma cópia em cache) e reescreve a decisão de roteamento com base no resultado.

O dip pode ser feito diretamente na base nacional, em um espelho local atualizado periodicamente ou em um fornecedor que revende acesso ao dip (TransNexus, Neustar, iconectiv, Bandwidth, TNS). Para ISPs e operadoras menores, o mais comum é contratar o dip como serviço de terceiros. O custo por dip varia conforme o fornecedor e o volume, normalmente uma fração de centavo, mas na escala de uma operadora esses custos se somam, e por isso manter os resultados em cache com TTLs bem calibrados faz diferença na operação.

Tratamento da flag NPDI

A flag NPDI na sinalização SIP indica que um nó anterior já fez o dip de LNP para esta chamada. Quando o SBC vê NPDI=yes em um INVITE de entrada, o comportamento correto é respeitar o resultado recebido e pular o dip. Refazer o dip de um número que já foi resolvido antes desperdiça tempo, custa dinheiro e pode gerar inconsistências de roteamento se a base consultada antes e a consultada depois divergirem. Um SBC bem configurado sempre verifica o NPDI antes de iniciar um dip e sempre marca o NPDI nos INVITEs de saída depois de fazer o próprio dip, para que os nós seguintes possam fazer o mesmo.

Onde o dip entra no fluxo de roteamento

O dip de LNP normalmente acontece no início do estabelecimento da chamada, depois da validação SIP básica e antes da decisão de roteamento. O resultado confirma a rota original baseada no NPA-NXX (o número não foi portado ou voltou para a central original) ou reescreve a rota para a nova operadora que atende o número. O ProSBC implementa dips de LNP por meio dos seus módulos de API: o script de roteamento dispara uma consulta HTTP ou SIP ao provedor de LNP, interpreta a resposta e atualiza a decisão de roteamento antes que a chamada avance. Para ver em detalhe como consultas externas se encaixam no processamento de chamadas do SBC, confira o guia de integração de roteamento de chamadas via API REST do SBC.

Por que o SBC é o lugar certo para isso

São dois motivos. Primeiro, o SBC é o ponto natural de entrada: ele já termina o SIP, ancora a mídia, aplica as regras de manipulação de cabeçalhos SIP e é o primeiro salto em que a lógica de roteamento de chamadas entra em ação. Fazer o dip de LNP nessa camada mantém as decisões de roteamento em um só lugar. Segundo, a arquitetura B2BUA dá ao SBC controle total sobre o INVITE de saída, o que inclui inserir o NPDI, reescrever a Request-URI, definir o LRN como número de roteamento e repassar intacto o número chamado original para o faturamento mais adiante.

O fluxo operacional: port-in e port-out

A camada técnica é a metade mais fácil. É no fluxo administrativo que a maioria das portabilidades dá certo ou falha, e é também ali que os ISPs sem equipe dedicada de operações de voz sentem o peso. O fluxo tem dois lados espelhados.

Port-in (você é a operadora receptora)

Receba a LOA assinada pelo cliente. Valide o pedido com o CSR obtido da operadora doadora; nome de faturamento ou endereço de serviço divergentes são o motivo mais comum de rejeição do LSR. Envie o LSR pela sua clearinghouse com a data de virada desejada. Acompanhe o retorno do FOC e resolva os códigos de rejeição que a operadora doadora apresentar (erro de digitação no número da conta, endereço divergente, conta congelada, saldo pendente). Com o FOC em mãos, provisione o roteamento no seu SBC, confirme a cobertura do plano de discagem, configure o correio de voz e os recursos que o assinante espera ter e informe a ele o horário da virada. Na virada, verifique se as chamadas de entrada chegam à nova plataforma e se o identificador de chamadas (caller ID) aparece corretamente nas chamadas de saída.

Port-out (você é a operadora doadora)

Receba o LSR da operadora receptora. Valide-o com o seu CSR e responda dentro do SLA definido pelo regulador: as regras da FCC exigem que portabilidades simples sejam concluídas em um dia útil, e as portabilidades empresariais complexas levam mais tempo. Emita o FOC com o horário de virada acordado ou rejeite o LSR com um código específico se a documentação não bater. Coordene internamente para que o faturamento encerre a linha na virada, para que os registros de detalhe de chamada (CDRs) fiquem guardados pelo prazo regulatório exigido e para que o número saia de forma limpa das tabelas de roteamento do seu SBC.

Quem cuida de cada etapa

Em uma operadora com equipe completa, o fluxo é dividido: a área de operações de voz fica com a troca de LSR e FOC, o faturamento encerra a conta, a equipe do SBC faz a mudança de roteamento e o time de sucesso do cliente conversa com o assinante. Em um ISP menor, a mesma pessoa costuma tocar três ou quatro dessas etapas, e é aí que os erros aparecem. Duas práticas diferenciam as operadoras que mantêm um fluxo de portabilidade limpo. A primeira é tratar cada portabilidade como um fluxo coordenado, com passagens de bastão explícitas e um único responsável: um ticket de acompanhamento, um checklist e uma validação em cada etapa. A segunda é automatizar a mudança de roteamento para que, na hora da virada, a atualização no SBC aconteça por uma requisição de API, em vez de depender de quem estiver de plantão aplicando a configuração manualmente às 2 da manhã.

Falhas mais comuns

A maioria das falhas de portabilidade tem origem administrativa. Em milhares de disputas de portabilidade, o padrão se repete: cerca de quatro em cada cinco vêm de dados divergentes, prazos perdidos ou falta de clareza sobre quem é o responsável, e a camada técnica de roteamento responde pelo restante. As falhas abaixo são as que as operadoras mais encontram.

Divergência no CSR e rejeição do FOC

O nome de faturamento do assinante no LSR precisa bater exatamente com o CSR da operadora doadora. “John A. Smith” e “John Smith” podem ser tratados como identidades diferentes. O mesmo vale para endereços, números de conta e contatos autorizados. Um único caractere divergente basta para rejeitar o LSR, o que custa à operadora receptora um novo ciclo de coleta da LOA e de reenvio. A solução está no processo: a operadora receptora obtém o CSR antes de enviar o LSR, compara linha a linha com a LOA e resolve qualquer divergência com o assinante antes que algo chegue à operadora doadora.

Janela de virada perdida

O FOC define um horário de virada específico. Se a operadora receptora não tiver o roteamento provisionado no SBC nesse momento, as chamadas de entrada para o número portado falham até que o roteamento esteja configurado. O assinante aceita passar por uma portabilidade; o que ele não aceita são horas sem receber chamadas. A solução é provisionar o roteamento no SBC com antecedência e vincular a ativação ao horário do FOC pela API do SBC, para que a mudança de roteamento seja acionada por evento, sem depender de alguém na frente do teclado.

Snapback (reversão da portabilidade)

A operadora doadora pode reverter uma portabilidade dentro de um prazo definido, normalmente 30 dias no NANP, em casos de port-out fraudulento ou em resposta a uma contestação do assinante. A operadora receptora fica com um registro órfão: o número voltou para a doadora, mas as tabelas de roteamento locais, os arquivos de CDR e a base de faturamento ainda apontam para a receptora. Lidar com snapback é uma questão de processo: uma conciliação periódica entre as tabelas de roteamento do SBC e o mapeamento oficial do NPAC detecta os registros órfãos antes que eles causem falhas de roteamento.

Falhas no dip de LRN

Se o SBC não consegue fazer o dip de LNP (timeout do provedor, erro de rede, credenciais de API vencidas, cache miss sem fallback), o roteamento volta para a lógica baseada em NPA-NXX e a chamada é entregue ao centro de tarifação original. Para números portados, esse é o destino errado. A solução é ter redundância no dip: configure provedores de LNP primário e secundário no SBC, use um timeout curto (normalmente de 500 a 2.500 ms), registre cada falha de dip nos CDRs para monitoramento e estabeleça uma política de fallback clara para quando os dois provedores falharem. Deixar as chamadas caírem no roteamento por NPA-NXX é aceitável em algumas configurações de operadora e inaceitável em outras; a política precisa ser definida de forma explícita.

Disputas inter-LATA e intra-LATA

ILECs menores às vezes resistem a portabilidades intra-LATA, alegando motivos tarifários ou regulatórios que, em geral, são mais procedimentais do que substantivos. O caminho para resolver é a escalada administrativa pela clearinghouse e, em alguns casos, pela FCC. A medida preventiva mais eficaz é manter a documentação do LSR precisa e completa, o que elimina os argumentos procedimentais para a resistência.

Perda de correio de voz e de recursos

Mensagens de correio de voz, recursos de chamada e personalizações por número são específicos de cada plataforma e não acompanham o número na portabilidade. O assinante espera, com razão, encontrar depois da portabilidade tudo o que tinha antes, e liga para o suporte quando isso não acontece. Alinhar as expectativas na etapa de coleta da LOA é a única solução duradoura, junto com um checklist de recursos na virada para garantir que a nova plataforma seja provisionada com os mesmos recursos de chamada que o assinante tinha na antiga.

Portabilidade por DID e portabilidade por tronco

Quando o assinante tem um tronco com muitos DIDs, cada DID é portado individualmente, com seu próprio LSR. Tentar portar um tronco de mil DIDs como um único registro pode resultar em portabilidades parciais, em que alguns DIDs vão para a operadora receptora e outros ficam na doadora, quebrando o roteamento de entrada de metade do tronco. A portabilidade de atacado usa mecanismos de portabilidade em bloco justamente para evitar isso; já a portabilidade de grandes inventários de DIDs no nível do assinante exige lotes coordenados.

STIR/SHAKEN e a documentação da portabilidade

No NANP, a documentação de portabilidade deixou de ser uma questão puramente operacional. No modelo da FCC para autenticação do chamador, a atestação de nível A exige que o provedor de serviços de origem tenha uma relação direta e verificada com quem faz a chamada, além de registros precisos de qual número está atribuído a qual cliente. A LOA, o CSR e o FOC são a prova de que o provedor pode atestar legitimamente no nível A as chamadas originadas no número portado. Provedores que não conseguem apresentar uma documentação de portabilidade limpa estão sendo rebaixados cada vez mais para a atestação B ou C pelos parceiros upstream que fazem a assinatura, com impacto mensurável na taxa de completamento de chamadas.

Na prática, o fluxo de portabilidade agora alimenta diretamente o fluxo de compliance. Guarde as LOAs em arquivo de longo prazo, vincule cada uma ao registro de portabilidade no NPAC e armazene tudo de forma que a equipe de compliance consiga recuperar os documentos quando precisar. Para um passo a passo mais completo dos requisitos de atestação e do caminho operacional da assinatura de nível C até a de nível A, veja o guia de atestação STIR/SHAKEN de nível A.

O que avaliar em um SBC para operações de LNP

Um SBC que opera em um ambiente com portabilidade ativa tem requisitos específicos. A maioria decorre dos pontos de arquitetura já abordados.

Um motor de roteamento programável faz diferença porque cada regime de LNP é diferente. O NANP usa o NPAC e dips de LRN; a UE usa ENUM em muitos mercados; Brasil e Índia usam bases centrais de portabilidade com semânticas de consulta próprias. Com uma camada de roteamento programável, o SBC implementa cada tipo de consulta sem esperar o ciclo de lançamentos do fabricante. O motor de roteamento Ruby do ProSBC expõe mais de 100 parâmetros de chamada e aceita consultas HTTP, Radius e SIP a qualquer sistema externo, o que facilita adicionar um novo provedor de LNP ou um novo formato de consulta.

O reconhecimento do NPDI na entrada e na saída significa que o SBC deve detectar o NPDI nas chamadas de entrada e respeitar o resultado do dip anterior, além de marcar o NPDI nas chamadas de saída depois de fazer o próprio dip. Sem isso, um dip feito em um único salto vira uma cascata de dips ao longo de vários saltos.

O controle do comportamento de LNP por NAP atende às necessidades diferentes de cada grupo de troncos. Um NAP voltado a uma operadora de atacado pode sempre confiar no NPDI recebido; um NAP voltado a assinantes pode sempre fazer o dip localmente; um tronco de Teams Direct Routing pode precisar de outra política. O SBC deve permitir que o operador defina o comportamento de LNP por NAP, sem mexer na política global.

A redundância no dip e o registro de falhas se traduzem em provedores primário e secundário, timeouts curtos, registro do resultado de cada dip nos CDRs e um comportamento de fallback explícito. Como o dip de LNP não é opcional, o modo de falha precisa ser definido com antecedência e poder ser observado depois.

As mudanças de roteamento via API tiram a hora da virada das mãos de uma pessoa: o SBC deve aceitar atualizações de roteamento pela API REST para que o fluxo de portabilidade dispare a mudança exatamente no horário que o FOC determina.

O detalhamento dos CDRs para auditorias de portabilidade precisa cobrir cada resultado de dip, cada LRN, cada flag NPDI e cada reescrita de Request-URI, para que a equipe de operações consiga reconstruir o roteamento de qualquer chamada contestada.

Perguntas frequentes

Qual é a diferença entre LNP e portabilidade numérica?
LNP (Local Number Portability) é o termo regulatório estrito usado no NANP para a portabilidade de linhas fixas. “Portabilidade numérica” é o termo mais amplo, que abrange a portabilidade fixa (LNP), a móvel (MNP), a de VoIP e a de tipo de serviço. No dia a dia da operação, os dois termos são usados como sinônimos, e a maioria das operadoras diz “LNP” para se referir a qualquer fluxo de portabilidade entre provedores.
Quanto tempo leva uma portabilidade?
No NANP, a FCC exige que portabilidades simples de linhas móveis e fixas sejam concluídas em até um dia útil a partir do FOC. Portabilidades empresariais complexas, com grandes inventários de DIDs ou portabilidades parciais, levam mais tempo. Na UE, o prazo é de um dia útil pelo artigo 106 do EECC; no Reino Unido, também é de um dia útil, pelas General Conditions da Ofcom. A maioria dos mercados da APAC fica em uma janela parecida. A execução técnica é rápida; o que consome os dias é a análise do LSR, o agendamento do FOC e a comunicação com o assinante.
Um número pode ser portado para outro país?
Não. A portabilidade numérica é nacional. Um número dos EUA não pode ser portado para uma operadora do Reino Unido, e um número do Reino Unido não pode ir para uma operadora alemã. O roteamento internacional de voz cuida do trecho entre países de qualquer chamada, mas o registro de portabilidade é local ao país que administra o bloco de numeração.
O que é um dip de LRN e por que meu SBC precisa fazê-lo?
Um dip de LRN é uma consulta à base do NPAC que retorna o Location Routing Number de um determinado número de telefone. O LRN informa à rede qual central atende o número no momento, e isso é necessário porque, depois da portabilidade, o NPA-NXX do número já não identifica a operadora que realmente o atende. O SBC precisa fazer o dip nas chamadas de entrada para que os números portados sejam roteados ao destino correto, e não ao centro de tarifação original.
O que acontece se uma portabilidade for rejeitada?
A operadora doadora devolve um código de rejeição que identifica o motivo: divergência no CSR, conta em cobrança, pedido pendente, linha congelada ou algo parecido. A operadora receptora resolve o problema com o assinante, corrige o LSR e reenvia. A data de virada solicitada originalmente costuma atrasar na mesma medida dos ciclos de reenvio, por isso um primeiro envio correto é sempre mais rápido do que novas tentativas.
O que é snapback?
Snapback é a reversão de uma portabilidade, iniciada pela operadora doadora dentro de um prazo definido (geralmente 30 dias no NANP). Acontece com mais frequência quando a portabilidade original foi fraudulenta ou quando uma disputa de cobrança é resolvida a favor do assinante original. A operadora receptora precisa de um processo de conciliação para detectar snapbacks antes que eles quebrem o roteamento de entrada de números que já não são dela.

Como o ProSBC lida com a portabilidade numérica

O ProSBC implementa dips de LNP por meio do seu motor de roteamento Ruby, com suporte a consultas HTTP e SIP à TransNexus, à Neustar, à iconectiv e a qualquer outro provedor que ofereça uma interface padrão. O NPDI é respeitado na entrada e marcado na saída. O comportamento de LNP é configurado por NAP, de modo que um único SBC pode aplicar, ao mesmo tempo, políticas diferentes a um tronco de atacado, a um tronco de assinantes e a um tronco de Teams Direct Routing. Os resultados dos dips ficam registrados nos CDRs para auditoria e resolução de disputas. As atualizações de roteamento entram pela API REST, e por isso a hora da virada não depende de ninguém.

A escala carrier-grade (até 60.000 sessões por servidor, 350.000 registros de endpoints e 1.024 grupos de troncos) atende com folga a operação de voz de ISPs e operadoras de atacado, e a opção de serviço gerenciado é indicada para operadoras cuja maior capacidade de engenharia está na banda larga ou no núcleo da rede, mais do que na operação de voz.

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